FORMAÇÃO
BÍBLICA
3. ALGUMAS REGRAS PRÁTICAS
Feitas
essas observações preliminares, é fundamental
a todo estudioso da Bíblia algumas regras práticas
que iremos apresentando à medida do desenvolvimento
do curso. A primeira delas é a de se deslocar abstratamente
ao tempo em que foi escrito o livro que se estuda ou se
lê, não se analisando o que está escrito
com o aculturamento atual, mas procurando entender bem o
que se escreveu com a mentalidade de então. Outra
delas é que os títulos, subtítulos
e a divisão em capítulos e versículos
não fazem parte do escrito em si, não são
inspirados, mas foram idealizados em princípios deste
segundo milênio de nossa era, para facilitar a localização,
bem como a leitura, e de acordo com a divisão vigente
por assunto ao tempo do criador do sistema. Por isso mesmo,
nem sempre um capítulo encerra um assunto, como acontece
com um livro moderno, podendo se encontrar a conclusão
dele mais adiante ou em local diverso.
Além
de tudo isto, é de se considerar que a Bíblia
forma uma unidade total de doutrina, coerente e religiosamente
muito lógica. E não se há de esquecer
a necessidade de sempre se recorrer ao ensino da Igreja,
que com seu "depósito" ilumina a interpretação
doutrinária dos textos difíceis. Não
é possível se dar ao luxo de interpretações
particulares, por mais sábias que nos possam parecer
(2Pe 1,20-21). Assim, é de se ler a Bíblia
tal como foi ela escrita e não como se gostaria que
tivesse sido composta. Qualquer originalidade pode lhe redundar
em falsificação grosseira, mesmo uma simples
entonação de voz que se busca interpretar.
As Escrituras foram escritas ao bafejo do Espírito
Santo e não Lhe pode ser atribuída qualquer
contradição entre os vários livros
que a compõem. Só o Espírito Santo
é o interprete do que inspirou pelo que Jesus fez
da Sua Igreja o único "depósito"
(da Fé) (v. Catecismo da Igreja Católica,
109/119):
"E
eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito,
que fique convosco para sempre, a saber, o Espírito
da Verdade, o qual o mundo não pode receber; porque
não o vê nem o conhece; mas vós conheceis,
porque ele habita convosco, e estará em vós.
(...) Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós
em mim, e eu em vós. (...) Mas o Paráclito,
o Espírito Santo a quem o Pai enviará em nome,
esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará
lembrar de tudo quanto eu vos tenho dito" (Jo 14,16-20.26)
"Ainda
tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis
suportar agora. Quando vier, porém, aquele, o Espírito
da Verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque
não falará por si mesmo, mas dirá o
que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas vindouras.
..." (Jo 16,12-15).
Pelos
trechos aqui transcritos vê-se que o próprio
Jesus diz que seria o Espírito Santo quem "vos
ensinará todas as coisas e vos fará lembrar
de tudo quanto eu vos tenho dito", "vos guiará
a toda a verdade" e "vos anunciará as coisas
vindouras". Assim sendo, é aquilo e somente
o que foi ensinado pelos Apóstolos que permaneceu
na Igreja como o depósito que São Paulo fala:
"Ó
Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado,
evitando as conversas vãs e profanas e as oposições
da falsamente chamada ciência; a qual professando-a
alguns, se desviaram da fé. A graça seja convosco"
(.I Tm 6,20-21)
"Por
esta razão sofro também estas coisas, mas
não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido,
e estou certo de que ele é poderoso para guardar
o meu depósito até aquele dia. Conserva o
modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido na
fé e no amor que há em Cristo Jesus; guarda
o bom depósito com o auxílio do Espírito
Santo, que habita em nós" (2 Tm 1,12-14).
Ainda,
quando Jesus estabelece o "primado" de Pedro,
deixa clara a autoridade dele e dos Apóstolos com
ele, quando lhes dá o poder de "ligar e desligar",
eis que estará sempre presente, "no meio deles":
(A
Pedro) "Disse-lhe Jesus: Bem-aventurado és tu,
Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue
que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus.
Pois também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas
do inferno não prevalecerão contra ela; dar-te-ei
as chaves do reino dos céus; o que ligares, pois,
na terra será ligado nos céus, e o que desligares
na terra será desligado nos céus" (Mt
16,17-19)
(A todos os Apóstolos 'reunidos' junto com Pedro)
"Em verdade vos digo: Tudo quanto ligardes na terra
será ligado no céu; e tudo quanto desligardes
na terra será desligado no céu. Ainda vos
digo mais: Se dois de vós na terra concordarem acerca
de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito
por meu Pai, que está nos céus. Pois onde
se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí
estou eu no meio deles" (Mt 18,18-20)
Além
disso, essa Sua presença entre os Apóstolos,
fica mais clara e eficaz ainda quando diz que "estarei
convosco, todos os dias, até a consumação
dos séculos". É que bastaria ter dito
"estarei convosco", mas acentua acrescentando
"todos os dias" e, ainda ratifica "até
a consumação dos séculos". Confirmando
tudo isso, vai Marcos nos informar que "quem crer (na
pregação da Igreja) e for batizado será
salvo, mas quem não crer será condenado".
Ora, quando Cristo afirma ser condenado quem não
crê na pregação é afirmar a infalibilidade
da pregação e a eficácia da Assistência
do Espírito Santo, e quando o diz aos Apóstolos
somente, di-lo à Igreja, depositária do que
ensinaram:
"E,
aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda
a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei
discípulos de todas as nações, batizando-os
em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos tenho
mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até
a consumação dos séculos" (Mt
28,18-20)
"E
disse-lhes: Ide por todo o mundo, e pregai o evangelho a
toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo;
mas quem não crer será condenado" (Mc
16,15-16)
(Lc
24,27"E, começando por Moisés e por todos
os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que
a ele dizia respeito. (...) '...era preciso que se cumprisse
tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés,
nos Profetas e nos Salmos.' Então abriu-lhes a mente
para que entendessem as Escrituras" (Lc 24, 27.44-45)
"Já
não vos chamo servos, porque o servo não sabe
o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo
quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer" (Jo 15,15).
Outro
fator importante a observar é a da sucessão
apostólica na Igreja, para o exercício do
mesmo múnus, com os mesmos dons apostólicos,
também ratificado na Escritura:
"Irmãos,
convinha que se cumprisse a escritura que o Espírito
Santo predisse pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi
o guia daqueles que prenderam a Jesus; pois ele era contado
entre nós e teve parte neste ministério. (...)
É necessário, pois, que dos varões
que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus
andou entre nós, começando desde o batismo
de João até o dia em que dentre nós
foi levado para cima, um deles se torne testemunha conosco
da sua ressurreição" (At 1,16-22).
Por
outro lado, também São Paulo afirma que Tiago,
Pedro e João são "colunas da Igreja"
(Gl 2,9). Ora, esse fato corrobora a existência de
hierarquia no Colégio Apostólico, até
mesmo ao tempo de Cristo, eis que somente eles foram testemunhas
de alguns acontecimentos importantes tais como a Ressurreição
da filha de Jairo (Mc 5,37), a Transfiguração
(Mc 9,2), a Agonia do Monte das Oliveiras (Mc 14,33), e
recomendados ao silêncio a respeito até a ressurreição
(Mc 5,43; 9,9), o que evidencia o motivo de serem considerados
"colunas". Ambas, a sucessão e a hierarquia,
evidenciam a presença da sucessão apostólica
caracterizando a autenticidade do Colégio Apostólico
Católico e do "depósito da fé":
"E,
aproximando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: Foi-me dada toda
a autoridade no céu e na terra. Portanto ide, fazei
discípulos de todas as nações, batizando-as
em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a observar todas as coisas que eu vos ordenei;
e eis que eu estou convosco todos os dias, até a
consumação dos séculos" (Mt 28,19-20).
Outra
observação que se deve fazer num começo
de estudo da Bíblia é com base na já
mencionada coerência que deve ter tudo o que se deduz
com a totalidade dela, donde a necessidade de sintonia das
conclusões com todo o seu conteúdo. Sempre
se buscará, por isso, confirmação na
própria Bíblia daquilo que se concluiu ou
se encontrou, ou também no magistério da Igreja,
detentora da Tradição, a única interprete
autorizada por Cristo, como acima se viu.
E
é bom nunca se perder de vista que a maioria dos
escritos do Novo Testamento, principalmente os Evangelhos,
foram escritos para o uso de pessoas que já conheciam
todo o tema que abordam em seus mínimos detalhes,
não lhes sendo necessário esclarecimentos
e explicações como para nós, que desconhecemos
os pormenores, os quais estão na Tradição
e Magistério da Igreja.
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